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Conferência de Bonn 2026: Instituto Decodifica analisa avanços e desafios da agenda de adaptação nas negociações climáticas da ONU em Bonn

Conferência de Bonn reforça necessidade de ampliar financiamento, fortalecer capacidades locais e reconhecer comunidades como produtoras de conhecimento climático.

A Conferência de Bonn (SB64), principal encontro técnico da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) entre as Conferências das Partes (COPs), deixou clara uma mudança de foco na agenda climática internacional. O desafio já não está na definição de compromissos, mas na capacidade de colocá-los em prática nos territórios mais expostos aos impactos da crise climática. 

Realizada entre os dias 8 e 18 de junho, na Alemanha, a conferência reuniu governos, organizações da sociedade civil, pesquisadores e organismos internacionais para avançar em temas centrais da agenda climática global, como adaptação, financiamento climático, gênero, tecnologia e implementação.

Ao acompanhar as negociações e eventos temáticos da SB64, o Instituto Decodifica identificou um conjunto de discussões que dialogam diretamente com sua atuação em geração cidadã de dados, justiça climática, participação social e fortalecimento dos debates sobre gênero e raça, temas que são caros para a agenda climática no Brasil.

A participação em Bonn faz parte de uma trajetória contínua de incidência internacional sobre clima do Instituto Decodifica. A organização acompanha as negociações da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima há quatro Conferências das Partes (COPs), esteve presente na COP30, participou da edição anterior das negociações em Bonn e retornou à Alemanha neste ano para acompanhar as discussões. Após a SB64, o Instituto também participou da London Climate Action Week, um dos principais encontros globais dedicados à ação climática e à construção de parcerias entre governos, sociedade civil, filantropia e organizações internacionais. Durante o Painel, ” Transição ecológica impulsionada pelo investimento nas economias emergentes: Oportunidades, financiamento e desafios de implementação”.

Para Mariana de Paula, Diretora Executiva do Instituto Decodifica, um dos principais consensos observados ao longo da conferência de Bonn foi o reconhecimento de que os impactos da crise climática já exigem respostas concretas e imediatas.

“A adaptação já não é uma agenda futura. O que vimos em Bonn foi um reconhecimento crescente de que os impactos climáticos estão acontecendo agora, enquanto o financiamento continua chegando de forma lenta, insuficiente e distante das necessidades reais dos territórios mais vulneráveis”, afirma.

Grande parte das discussões acompanhadas pelo Instituto Decodifica esteve relacionada ao avanço do Global Goal on Adaptation (GGA), um mecanismo que busca estabelecer parâmetros globais para avaliar o progresso da adaptação climática.

Embora os debates envolvam metodologias e indicadores técnicos, a discussão central esteve concentrada na implementação das ações. Representantes de países em desenvolvimento destacaram que o volume atual de recursos destinados à adaptação continua insuficiente diante da velocidade dos impactos climáticos. Além disso, apontaram que os mecanismos de acesso aos fundos climáticos permanecem excessivamente burocráticos, o que dificulta a chegada dos recursos aos países e comunidades que mais necessitam deles.

Mariana de Paula destaca que os debates demonstraram que a lacuna existente não se resume à quantidade de financiamento disponível. “Existe uma distância significativa entre as necessidades reais de adaptação e os recursos atualmente disponíveis para respondê-las. A lacuna não está apenas no volume de financiamento, mas também na forma como ele chega aos países.” 

Outro aspecto recorrente nas negociações foi a defesa da adaptação como um bem público global. Diferente de muitos investimentos em mitigação, ações como sistemas de alerta precoce, fortalecimento da resiliência comunitária, segurança hídrica e proteção de ecossistemas nem sempre geram retornos financeiros diretos. Por essa razão, diversos países defenderam que o financiamento para adaptação seja baseado em recursos públicos e instrumentos concessionais, a fim de evitar o aprofundamento do endividamento dos países de maior vulnerabilidade climática.

Além das discussões sobre financiamento, os painéis também abordaram a importância crescente da produção de dados para orientar políticas de adaptação. Embora a agenda de dados não tenha sido tratada como tema central de todas as negociações, ela apareceu de forma transversal em diferentes discussões sobre monitoramento, planejamento, implementação e avaliação de políticas climáticas.

“As discussões em Bonn mostraram que a adaptação não será definida apenas por indicadores globais, mas pela qualidade das evidências que orientam as decisões. É evidente que não existe adaptação efetiva sem dados, mas para que as políticas sejam eficazes, as informações precisam dialogar com a realidade dos territórios e reconhecer comunidades, governos locais e organizações da sociedade civil como produtores legítimos de conhecimento sobre os impactos e as respostas à crise climática. Acredito que o grande desafio dos próximos anos será fortalecer os meios de implementação, facilitando tecnologia e recursos financeiros para a construção de sistemas de monitoramento que sejam tecnicamente robustos, mas também transparentes, participativos e capazes de refletir a diversidade de realidades que compõem a crise climática”, afirma Mariana de Paula.

De acordo com o Instituto Decodifica, esse debate possui forte conexão com experiências de Geração Cidadã de Dados (GCD) desenvolvidas pela organização em diferentes territórios brasileiros.

Projetos como Retratos das Enchentes demonstram como comunidades podem produzir dados capazes de preencher lacunas de informação por vezes ausentes das bases de dados oficiais, assim, contribuem para qualificar políticas públicas e fortalecer processos de incidência política.

Para a organização, o reconhecimento crescente da importância das evidências locais representa uma oportunidade para ampliar o papel de metodologias participativas na implementação das políticas climáticas.

A agenda da conferência também foi marcada pelo debate sobre a necessidade de fortalecer a produção de dados desagregados por gênero e idade e ampliar a participação de mulheres e jovens nos processos de tomada de decisão climática.

Durante eventos dedicados à implementação do Plano de Ação de Gênero da UNFCCC, especialistas ressaltaram que ainda existem importantes lacunas de informação sobre como os impactos climáticos afetam diferentes grupos sociais.

As discussões também reforçaram a necessidade de desenvolver metodologias participativas e não extrativistas de produção de conhecimento. Mariana de Paula avalia que um dos aspectos mais relevantes dos debates foi o reconhecimento de comunidades, mulheres e jovens como produtores legítimos de conhecimento.

“Os especialistas reforçaram que grupos afetados não podem ser vistos apenas como fontes de informação. Eles precisam ser reconhecidos como produtores de conhecimento, capazes de formular perguntas, produzir evidências e contribuir diretamente para a construção de soluções climáticas”, complementa.

As discussões sobre gênero em Bonn dialogam diretamente com o Projeto Manas, iniciativa do Instituto Decodifica que mobiliza jovens mulheres periféricas na produção de pesquisas, diagnósticos e recomendações sobre justiça climática.

De acordo com a organização, experiências desse tipo respondem a uma demanda crescente observada na própria agenda internacional, que é ampliar a participação efetiva de populações historicamente sub-representadas nos processos de produção de conhecimento e formulação de políticas públicas.

Além dos painéis sobre gênero, os debates sobre financiamento climático também destacaram a necessidade de ampliar o acesso de organizações comunitárias e grupos liderados por mulheres aos recursos internacionais.

Representantes de organismos internacionais e da sociedade civil defenderam mecanismos capazes de simplificar processos de acesso ao financiamento e fortalecer capacidades institucionais de organizações que atuam diretamente nos territórios.

“A discussão deixou claro que não basta ampliar os recursos disponíveis. Também é necessário garantir que esses recursos cheguem aos governos e organizações locais para acelerar a implementação de soluções nos territórios”, afirma Mariana de Paula.

Ela explica que a participação efetiva das comunidades na definição de prioridades e investimentos continua como um dos principais desafios da governança climática global.

Uma das principais avaliações que emergiram das discussões da conferência foi que a adaptação climática dependerá cada vez mais da capacidade de conectar financiamento, participação social, transparência e produção de conhecimento.

Para o Instituto Decodifica, a SB64 reforçou que a implementação das políticas climáticas exige processos democráticos capazes de reconhecer diferentes formas de conhecimento e incorporar evidências produzidas nos territórios.

“A principal mensagem que levamos de Bonn é que enfrentar a crise climática exige mais do que recursos financeiros e indicadores técnicos. Exige governança democrática. Isso significa garantir que as populações que vivem os impactos da crise climática participem do processo, seja através da produção de evidências, do acompanhamento da implementação das políticas e sejam reconhecidas como protagonistas das soluções”, conclui Mariana de Paula.