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Nota técnica “Voto Favelado: exerça esse direito!”

1. Introdução

Esta nota técnica apresenta os aspectos metodológicos e os resultados consolidados para o cálculo das estimativas de abstenções, bem como dos votos nulos e brancos, no primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 no Brasil, com foco inédito na identificação do comportamento eleitoral potencial em territórios favelados. Diante da baixa infraestrutura urbana interna a esses aglomerados e da escassez de seções eleitorais inseridas estritamente dentro de suas poligonais oficiais, o desenho de pesquisa emprega uma estratégia de análise espacial baseada em georreferenciamento e aplicação de buffers (zonas) de proximidade para mapear as urnas localizadas nas franjas e no entorno imediato das comunidades. 

Para além do levantamento descritivo nacional e do desmembramento dos indicadores pelas cinco grandes regiões geográficas do país, o escopo deste trabalho foi expandido para testar o chamado efeito de bordas (boundary effect) e o viés de contaminação amostral do asfalto por meio de um rigoroso teste de sensibilidade de distâncias multiescalares (50 metros versus 200 metros) estratificado por quartis de tamanho de favela. Desse modo, a presente nota estabelece uma solução metodológica fixada no raio de 100 metros, fornecendo um diagnóstico rigoroso sobre a magnitude dos votos não-válidos em áreas de vulnerabilidade socioespacial.  

2. Dados

As fontes de dados utilizadas foram o site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e o Censo 2022, realizado pelo IBGE. Os dados do TSE referem-se aos boletins de urna de cada uma das 27 unidades da federação para as eleições de 2026. Esses dados foram combinados com dados de localização das seções, organizados por plataformas como “Como Meus Vizinhos Votam” e “Onde dá para Conversar”, cedidos por Mateus Pestana. Já os dados de áreas de Favela do Brasil, utilizam as malhas geográficas de favelas de todo o país, organizados pelo IBGE, utilizando o pacote geobr em linguagem R, utilizando a função geobr::read_favela( year =2022).

3. Metodologia

3.1 Votos e abstenções

Os dados do TSE sobre a quantidade de abstenções e de votos nulos e brancos por urna foram cruzados com as localizações de cada seção eleitoral. A partir disso, os dados foram agregados por seção eleitoral, a partir da soma da quantidade dessas variáveis (abstenções ou votos nulos ou brancos), o que permite o cômputo das mesmas com informações geográficas.

3.2 Estratégia de identificação de abstenções ou votos nulos e brancos potenciais de populações faveladas

Os dados eleitorais não identificam o local de moradia do eleitor, consequentemente, não é possível saber se o voto na urna é de uma pessoa moradora de favela. Esse é o contexto em que esta análise se insere. Diante desse quadro, foi necessário criar estratégias metodológicas para nos aproximarmos do que seria o número de votos das populações faveladas. 

O caminho adotado foi recorrer à geografia, uma vez que “favela” é uma categoria inerentemente espacial. Criou-se um filtro de zonas eleitorais localizadas dentro das favelas, assumindo que esses votos são de moradores da favela, em sua esmagadora maioria, já que o local de votação é determinado levando em consideração o endereço informado à justiça eleitoral.

No entanto, ao analisar esse volume de votos e a disposição das zonas eleitorais dentro de favelas, observou-se que existe uma chance reduzida de haver seções eleitorais dentro de favelas, dada a carência de aparelhos públicos e  os processos de urbanização particulares dessas áreas. Portanto, considerar apenas as seções eleitorais que estão dentro dos territórios das favelas como aquelas que representam os locais de votação potenciais dessas populações, pode criar um viés de subestimação da quantidade de abstenções e de votos nulos ou brancos de populações faveladas.

Para lidar com este desafio de identificação, foram utilizados buffers de 100 metros das bordas das favelas para incluir as seções eleitorais com maior potencial de locais de votação de populações faveladas. A Figura 1 ilustra a aplicação dessa estratégia de identificação para a favela da Rocinha. O mesmo método foi utilizado em todas as favelas do Brasil.

mapa voto favelado, rocinha, favela da rocinha
Figura 1 – Estratégia de identificação de potenciais votos não-válidos para populações faveladas utilizando buffers espaciais de 100 metros de distância. Fonte: Elaboração própria, a partir da base de dados.

Fica evidente, por meio da Figura 1, que o valor de 100 metros é conservador, pois considera apenas seções eleitorais que se localizam a até aproximadamente um quarteirão da entrada de uma favela. Porém, há um grande desafio na delimitação dessas áreas, pois mesmo assim existe o risco de captar seções nas quais populações não faveladas votaram ou se abstiveram. Esta escolha conservadora, portanto, visa reduzir este risco. Dessa forma, vale ressaltar que os valores estimados visam representar uma aproximação  potencial  da quantidade de abstenções e de votos nulos ou brancos das populações faveladas, e não necessariamente as quantidades exatas que foram oriundas dessas populações.

3.3 Teste de robustez metodológica e análise de sensibilidade

Para avaliar a estabilidade da estratégia de identificação de votos favelados potenciais e mitigar o risco de efeito de borda (boundary effect), realizou-se um teste de sensibilidade multiescalar comparando o comportamento dos dados sob diferentes raios de cobertura. O objetivo foi testar se favelas de menor extensão territorial estariam indevidamente captando seções eleitorais de bairros regulares adjacentes (asfalto), o que geraria um viés de contaminação amostral. Para que o teste controlasse as profundas disparidades regionais no tamanho das comunidades, a malha de favelas foi segmentada em quartis de área calculados individualmente para cada Unidade da Federação (UF), dividindo-as em quatro categorias de tamanho: pequena, média-pequena, média-grande e grande.

A partir dessa estratificação local, o modelo de identificação foi estressado por meio da aplicação de dois cenários extremos de distância: um buffer expandido de 200 metros e um buffer restrito de 50 metros, este último cobrindo estritamente o núcleo interno ou a calçada imediata dos territórios. A validação de robustez baseia-se na comparação das taxas percentuais de abstenção obtidas em cada estrato sob os dois raios. Uma oscilação abrupta nas taxas de abstenção ou de votos nulos ou brancos ao encolher o buffer indicaria a presença de viés de seleção no raio mais amplo, enquanto a estabilidade dos índices percentuais, independentemente da contração geométrica e da consequente redução nos volumes absolutos de eleitores, serve como contraprova empírica da homogeneidade do perfil socioeleitoral capturado.

4. Resultados

4.1 Resultados para o Brasil.

A Figura 2 mostra os principais resultados para as estimativas dos potenciais votos não-válidos  (abstenções ou votos brancos ou nulos) das populações faveladas. O total de abstenções potenciais para populações faveladas foi de 2,4 milhões, enquanto que para o restante da população foi de 30 milhões. Em termos percentuais, os níveis de abstenção entre ambos os tipos de localidades foram similares, em que as seções com maiores e menores potenciais de captação de votos favelados foram de 20,6% e 20,9%, respectivamente.

abstenção, voto nulo e voto branco em favelas e periferias do Brasil
Figura 2 – Comparativo de votos não-válidos entre proximidades de favelas e o restante das seções. Fonte: Elaboração própria, a partir da base de dados.

Quando analisados os votos brancos, o valor absoluto de até 100 metros das favelas foi de 223,2 mil votos, frente a 2,06 milhões de registros no restante. Em termos proporcionais, a taxa de votos brancos sobre o comparecimento total foi de 2,4% nas seções com maior potencial de votos favelados e 1,9% naquelas localizadas fora do raio de proximidade.

O número de votos nulos também foi proporcionalmente maior nas franjas periféricas. O total absoluto de anulações foi de 329,8 mil votos no entorno de favelas e de 3,32 milhões em seções localizadas a mais de 100 metros de favelas. Proporcionalmente, a taxa de votos nulos nas áreas com potencial de captação favelada atingiu 3,6% dos votos totais apurados naquelas urnas, enquanto o índice apurado fora do raio de influência foi de 3,1%. 

4.2 Resultados por Regiões do País

A Figura 3 detalha o comportamento eleitoral segmentado pelas grandes regiões geográficas do país. No indicador de abstenção, observa-se uma forte disparidade nos patamares gerais entre as regiões. Enquanto o Sul registra os maiores índices proporcionais de absenteísmo do país, atingindo 22,4% de abstenção no entorno de favelas e 22,3% fora do raio, o Nordeste apresenta os menores níveis, com 17,2% e 18,5%, respectivamente. Em termos absolutos, o Sudeste concentra o maior volume de ausências, registrando 1,19 milhão de faltas potenciais em áreas de favela e 13,8 milhões no restante. Em termos percentuais internos, o Norte registra a maior discrepância de proximidade, onde as áreas de maior potencial favelado tiveram 17,7% de abstenção frente a 19,8% nas demais localidades. Já a região Centro-Oeste apresentou 20.5% e 21.3% de abstenções em regiões até 100 metros de uma favela e fora desse perímetro, respectivamente.

 

resultado do voto em periferias do Brasil por região, norte, sul, sudeste, nordeste e centro-oeste
Figura 3 – Comportamento Eleitoral por Região Geográfica do Brasil. Fonte: elaboração própria, a partir da base de dados.

Com relação aos votos brancos, os maiores contingentes absolutos também ocorrem no Sudeste, com 110,5 mil e 1,03 milhão de votos nos recortes de favela e asfalto, respectivamente. Proporcionalmente, a taxa de votos brancos é superior no entorno das favelas em todas as regiões, com destaque para o Nordeste, que registra o maior patamar proporcional (2,1% ante 1,6%), e para o Sul (2,2% ante 1,8%). O Norte (1.3% ante 0.8%) e o Centro-Oeste (1.5% ante 1.2%) registram os menores índices proporcionais dessa modalidade de voto não-válido.

Por fim, os votos nulos repetem o padrão de maior incidência proporcional nas franjas periféricas em todo o território nacional. No Sudeste, as áreas próximas a favelas registram 3,4% de votos nulos contra 3,1% no restante. A maior diferença proporcional é verificada na região Nordeste, onde o potencial de votos favelados atinge 3,7% de anulações frente a 3,2% no asfalto. Nas regiões Norte e Centro-Oeste, os níveis percentuais de votos nulos permanecem estáveis entre os dois recortes geográficos, fixando-se em 2,0% e 2,1%, respectivamente.

3.3 Teste de sensibilidade espacial e validação de robustez

Um potencial fator de viés na estratégia de identificação reside na variação do tamanho poligonal das favelas e no consequente efeito de borda (boundary effect). Teoricamente, favelas de menor extensão territorial poderiam ter suas taxas infladas ou contaminadas pela captação indevida de seções eleitorais frequentadas por populações residentes no asfalto regular adjacente, um problema cuja probabilidade de ocorrência tende a ser menor em grandes complexos comunitários dadas as localizações majoritariamente internas das seções. Para testar a existência dessa distorção e avaliar a estabilidade do modelo, realizou-se um teste de estresse comparando o buffer padrão com um raio estrito de 50 metros.

Os resultados do teste de sensibilidade estão reportados na Tabela 1 e ilustrados na Figura 4. Os dados empíricos revelam uma alta estabilidade nas taxas de abstenção mesmo diante da redução drástica do raio de captação, o que rejeita a hipótese de contaminação amostral. No grupo classificado como Pequena, o encolhimento do buffer de 200 metros para 50 metros gerou uma contração severa no volume absoluto de eleitores aptos, que despencou de 3,55 milhões para 612,6 mil. Apesar dessa perda de 82,7% da base de dados, a taxa percentual de abstenção permaneceu virtualmente idêntica, oscilando apenas de 21,6% para 21,7%.

abstenções nas eleições 1º turno em torno de favelas
Figura 4 – Teste de sensibilidade espacial para taxas de abstenção. Fonte: elaboração própria, a partir da base de dados.

 

abstenção eleitoral 1º turno eleições 2026
Tabela 1 – Matriz de sensibilidade espacial da abstenção eleitoral. Fonte: elaboração própria, a partir da base de dados.

Essa mesma consistência matemática repete-se em todos os demais estratos de tamanho. No grupo Média-Pequena, a taxa varia de 21,4% para 21,2%; no Média-Grande, passa de 20,6% para 20,2%; e no estrato Grande, oscila de 19,9% para 19,4%. Como as linhas de tendência correm paralelas e praticamente horizontais, comprova-se que o perfil socioeleitoral capturado no raio expandido é homogêneo ao do miolo dos territórios. A alteração nos indicadores absolutos reflete unicamente o efeito geométrico esperado da redução da área de cobertura dos buffers, sem que isso implique em viés de seleção.

A estabilidade observada valida a robustez metodológica do desenho de pesquisa, indicando que os eleitores residentes na faixa de transição de até 200 metros compartilham do mesmo padrão de comportamento político verificado no núcleo das comunidades. Contudo, para a consolidação final das estimativas absolutas e mitigação definitiva de sobreposições com a malha urbana regular, optou-se pela adoção do buffer intermediário de 100 metros. Essa distância equivale ao comprimento médio de um quarteirão padrão e funciona como uma solução de compromisso (trade-off): preserva o poder amostral das seções periféricas essenciais sem incorrer nas superestimativas de volumes inerentes aos raios mais amplos.

5. Considerações finais

Os resultados consolidados nesta nota técnica têm o objetivo de dimensionar o volume e o comportamento dos votos não-válidos potenciais oriundos de territórios favelados no Brasil. A aplicação do buffer de 100 metros revelou que a taxa de abstenção no entorno imediato das comunidades fixou-se em 20,6% (frente a 20,9% fora do raio), enquanto as taxas de votos brancos e nulos registraram 2,4% (ante 1,9%) e 3,6% (ante 3,1%), respectivamente. Embora o teste de sensibilidade espacial (50m vs. 200m) tenha chancelado a robustez metodológica do modelo ao provar a estabilidade dessas taxas independentemente do tamanho poligonal das favelas, o desdobramento regional expôs assimetrias geográficas no volume e na proporção desses votos inválidos. O indicador de abstenção nas seções com potencial de captação favelada variou em 5,4 pontos percentuais entre os extremos do país, registrando o patamar mais elevado na região Sudeste, com 22,6%, seguida pela região Sul, com 22,4%, enquanto o menor índice de abstenção foi verificado no Nordeste, com 17,2% de faltas. Em suma, o mapeamento quantitativo e o teste de estresse dos parâmetros de distância permitiram isolar a influência das franjas periféricas sobre o resultado eleitoral, fornecendo uma métrica robusta de como o desengajamento e o protesto na urna se materializam especificamente no entorno desses territórios.

Coordenação de pesquisa do Instituto Decodifica:

Kayo Moura

Marcela Toledo

Iná Odara

Luiz Pedro Silva

Agradecemos ao Onde dá para Conversar e ao Mateus Pestana por disponibilizarem os dados georreferenciados dos locais de votação registrados pelo TSE.