Há quem prefira nos ver divididos: nota de posicionamento do Instituto Decodifica sobre as eleições de 2026
Em 2020, uma pergunta não saía da nossa cabeça: como a doença que o governo dizia estar sob controle já tinha batido em tantas portas do Jacarezinho? Nós nascemos lá. Andávamos pelos becos, anotávamos nomes, sintomas e endereços. Os números oficiais contavam uma coisa e a rua contava outra, e foi dessa diferença que nasceu o Jaca Contra o Corona, depois o LabJaca e, hoje, o Instituto Decodifica.
Os nossos valores vêm das nossas experiências. Eles não mudam com o calendário eleitoral, e é com eles que encaramos, mais uma vez, o que está em jogo. Em maio de 2021, uma operação policial no Jacarezinho deixou 28 mortos e entrou para a lista das mais letais da história do Rio de Janeiro. Em outubro de 2025, foi a vez do Alemão e da Penha, com mais de cem mortes em um único dia, numa operação anunciada como vitória. Cada número tinha nome, família e velório, e quem ficou continua morando no mesmo lugar, com o mesmo medo. Há quase vinte anos, o Rio de Janeiro é governado por uma política de segurança que repete o mesmo método e obtém o mesmo resultado: o corpo preto e favelado no chão e a promessa de que, da próxima vez, vai dar certo.
Sabemos que há quem prefira nos ver divididos. Quem lucra com a nossa desconfiança, com o cansaço, com a ideia de que nada muda e de que cada um deve cuidar do seu próprio umbigo. Enquanto brigamos entre nós, a verdadeira injustiça segue funcionando, de salário baixo em salário baixo, de operação em operação, de apagamento em apagamento. Nesses 6 anos de correria, aprendemos, batendo de porta em porta, que os que se alimentam da destruição são poucos e nós somos muito mais. Somos as mães que não desistem de lutar pelas nossas famílias, os professores que não desistem de acreditar nos seus alunos, os jovens que insistem em transformar sua comunidade, a vizinhança que faz o mutirão. Somos a sustentação desse país. Quando nos reconhecemos, o jogo muda.
Entre 2019 e 2022, lembramos os anos de trevas. A ciência foi tratada como inimiga, o luto virou piada, e quase 700 mil pessoas morreram de Covid com oxigênio em falta e vacina à espera — e não se esqueçam: por negacionismo e pela vontade própria do presidente da época, voltamos ao mapa da fome e 33 milhões de brasileiros não tinham comida no prato. Quem morreu primeiro e em maior número tinha cor e CEP conhecidos, e nós enterramos muitos deles.
Vale lembrar o desmonte da educação, as verbas cortadas, as escolas e universidades sob ataque e a chance de crescer através do estudo indo embora. O contexto econômico era pavoroso e sofremos com o desmoronamento de várias políticas sociais. O Bolsa Família teve seus critérios alterados e milhares de famílias foram retiradas do programa. Os CRAS e CREAS dos nossos bairros foram fechados por falta de recursos. O programa Minha Casa, Minha Vida foi substituído, e a construção de moradias foi interrompida. Não contamos isso para reabrir a ferida. Contamos porque quem esquece acaba convidando à repetição.
O país que queremos defender é aquele em que a segurança seja para todos, que a educação e o trabalho abram caminhos para a prosperidade e o bem-viver, que a saúde, a ciência e a informação pública sejam tratadas como patrimônio. Por isso, a nossa posição neste segundo turno não deixa margem para dúvida: estamos com a democracia para nunca mais voltar ao que foram aqueles anos de trevas, em que nossos direitos enquanto cidadãos foram violados, a imprensa perseguida, a ciência desacreditada, a violência de Estado tratada como método e a população negra, pobre, favelada e periférica pagando a conta.
É uma escolha tomada a partir da nossa atuação, das evidências que levantamos em cada periferia, da memória dos nossos mais velhos e do que vimos e vivemos. Temos a chance de reconstruir juntos o futuro que queremos: a defesa da democracia, da vida e dos direitos. Não existe neutralidade nessa hora. Quem tenta ficar em cima do muro costuma descobrir tarde demais de que lado caiu.
Instituto Decodifica