Geração Cidadã de Dados: como o Instituto Decodifica constrói pesquisas com os territórios
Quando uma enchente atinge uma periferia, nem sempre existem informações capazes de mostrar quantas famílias perderam bens, quais áreas ficaram mais vulneráveis ou quais impactos sociais, físicos e até psicológicos a população enfrentou. A mesma dificuldade aparece em temas como segurança pública, acesso à água, energia e saneamento. Isso mostra um padrão em que, muitas vezes, os territórios mais afetados por desigualdades sociais são aqueles sobre os quais menos dados são produzidos.
A ausência de informações não interfere somente em uma questão estatística. Ela influencia diretamente a formulação de políticas públicas, a distribuição de recursos e a capacidade de resposta dos governos. Sem dados qualificados sobre os territórios, parte da realidade das periferias permanece invisível para quem é responsável pelas decisões.
Foi da necessidade de enfrentar essa lacuna que a Geração Cidadã de Dados (GCD) passou a ocupar um lugar central no trabalho do Instituto Decodifica. A metodologia reúne levantamento, análise, comunicação e incidência com dados que colocam a população no centro da produção do conhecimento.
De forma geral, a Geração Cidadã de Dados se diferencia por três características: quem produz os dados, como eles são produzidos e para qual finalidade. Ela valoriza o protagonismo da sociedade civil, a construção participativa do conhecimento e o uso das informações para promover transformações sociais.
A proposta parte da compreensão de que as pessoas que convivem de perto com determinado problema possuem conhecimentos fundamentais para compreendê-lo. Por isso, a população é mais do que uma fonte de informação; sua experiência ajuda a definir perguntas, prioridades e caminhos de pesquisa.
Para Kayo Moura, Coordenador de Pesquisa do Instituto, esse modelo amplia o impacto da participação social ao permitir que a população influencie decisões centrais da pesquisa.
“Cada território apresenta desafios diferentes. Por isso, não existe uma receita única para aplicar a Geração Cidadã de Dados. O que permanece é o compromisso de construir cada pesquisa em diálogo com as pessoas que conhecem aquela realidade.”
A GCD é utilizada por organizações, coletivos e institutos de pesquisa em diferentes partes do Brasil. No Instituto Decodifica, a metodologia foi aprimorada a partir das experiências desenvolvidas em favelas e periferias, principalmente, em contextos em que havia pouca informação disponível sobre a realidade local.
A origem deste trabalho remonta ao período da pandemia de Covid-19. Naquele momento, foram identificadas diferenças entre os dados disponíveis e comunicados na grande mídia versus o que era observado diariamente no território quanto ao número de pessoas com sintomas do vírus. A percepção dessa ausência impulsionou iniciativas de pesquisa e produção de dados voltados para as favelas. O processo contribuiu para consolidar uma metodologia que orienta os projetos do Decodifica até hoje.
“Logo no início da pandemia, nos juntamos para realizar campanhas de conscientização sobre a COVID-19, além da distribuição de cestas básicas e kits de higiene. A partir de um formulário que aplicamos com as famílias que recebiam o auxílio, percebemos uma grande discrepância entre o número de pessoas com sintomas do vírus e os dados apresentados pelo Estado. Então pensamos: ‘Se o Estado não está dando conta de mapear quantas pessoas estão infectadas, como vai haver vacina e tratamento adequados para todo mundo?’”, explica o cofundador Bruno Sousa.
Ao longo de sua atuação, o Instituto estruturou uma trilha metodológica de Geração Cidadã de Dados baseada na construção coletiva do conhecimento. Cada projeto possui características próprias, mas todos compartilham um princípio fundamental de que as pessoas que vivem o território participam ativamente da pesquisa e contribuem com os saberes, experiências e prioridades que orientam cada etapa do processo.
Esse compromisso começa antes mesmo da aplicação dos questionários. O trabalho geralmente se inicia com o mapeamento de organizações comunitárias, coletivos, lideranças locais e iniciativas já existentes no território, como ocorre no projeto Retratos das Enchentes. A etapa permite compreender a dinâmica da comunidade e construir relações de confiança com quem atua na busca por melhorias locais.
O mapeamento também ajuda a evitar práticas extrativas de pesquisa, nas quais instituições externas entram no território apenas para coletar informações, sem retorno à população local. Essa parceria com organizações locais é um dos elementos que diferenciam nossa abordagem.
Após essa etapa inicial, começam os momentos de escuta ativa. Grupos focais e outras atividades qualitativas reúnem moradores, lideranças e representantes de organizações para identificar preocupações, demandas e prioridades. Essas conversas ajudam a definir quais questões precisam ser investigadas e quais informações ainda não existem sobre aquela realidade.
As oficinas territoriais aprofundam esse processo. Além de apresentar conceitos relacionados ao tema, à pesquisa e à produção de dados, os encontros funcionam como espaços de formação e construção coletiva.
Mariana de Paula, Diretora Executiva do Instituto, explica que a produção de dados precisa reconhecer que as comunidades também são produtoras de conhecimento sobre os problemas que enfrentam. Para ela, processos participativos ampliam a qualidade das informações disponíveis e fortalecem mecanismos democráticos de participação social.
“Durante muito tempo, as periferias foram tratadas apenas como objetos de pesquisa. A Geração Cidadã de Dados propõe uma mudança de lógica, onde os territórios passam a produzir evidências, interpretar seus resultados e participar da construção das soluções sobre sua própria realidade. Isso fortalece a capacidade de resposta das favelas e periferias, onde elas passam a reivindicar direitos com dados, influenciando as políticas públicas que impactam suas vidas.”
Concluída a fase de preparação, começa a pesquisa de campo. Moradores e representantes de organizações parceiras realizam entrevistas e aplicam questionários junto à população local. A presença de pessoas que conhecem o território facilita o diálogo com os entrevistados e fortalece a confiança necessária para a coleta de informações.
A pesquisa de campo também possui uma dimensão formativa. As organizações participantes desenvolvem conhecimentos relacionados à coleta e ao uso de dados e ampliam sua capacidade de atuação após o encerramento do projeto. O fortalecimento das capacidades locais é considerado parte fundamental da metodologia.
Os dados coletados seguem para a etapa de análise e sistematização. Em que os pesquisadores trabalham em conjunto com organizações parceiras para interpretar os resultados e compreender o que eles revelam sobre a realidade estudada. O processo busca transformar informações em evidências capazes de orientar debates públicos e ações em prol do território.
A elaboração do relatório não representa o encerramento da pesquisa. Os resultados precisam retornar aos territórios e alcançar diferentes públicos. Por essa razão, a comunicação ocupa um papel estratégico em toda a trilha metodológica.
O Instituto Decodifica desenvolve campanhas, materiais educativos, conteúdos audiovisuais e ações presenciais que tornam os dados mais acessíveis para moradores, organizações sociais, gestores públicos e veículos de comunicação. O compromisso é traduzir informações complexas para uma linguagem capaz de dialogar com diferentes públicos.
Para Bruno Sousa, a produção de dados só cumpre plenamente o seu papel quando as informações retornam para os territórios e conseguem influenciar debates públicos. Ele destaca que a comunicação e a incidência política são etapas fundamentais para transformar evidências em mobilização social e em propostas concretas para o poder público.
A comunicação de impacto está relacionada à incidência política. A metodologia busca conectar as experiências vividas pela população aos espaços de tomada de decisão. Os dados produzidos servem como ferramenta para qualificar debates, fortalecer reivindicações e subsidiar a formulação de políticas públicas.
A atuação acontece em diferentes escalas, desde governos municipais até instâncias estaduais e federais. A participação da sociedade civil é essencial para a construção de respostas mais próximas das necessidades reais da população.
A GCD já orientou projetos em diferentes áreas de atuação do Instituto Decodifica. Entre eles está o Retratos das Enchentes, iniciativa de pesquisa sobre justiça climática em territórios de Pernambuco, Rio de Janeiro e Maranhão.
O projeto surgiu em um contexto de enchentes e escassez de dados sobre os impactos das chuvas extremas nas comunidades. A pesquisa busca produzir informações capazes de fortalecer a atuação das organizações locais e contribuir para políticas públicas voltadas à adaptação climática. Saiba mais no documentário “Depois que a água baixou”, uma produção sobre a pesquisa de Retratos.
A metodologia também esteve presente no projeto Manas, que desenvolveu processos formativos para mulheres negras e periféricas no Rio de Janeiro, a fim de construírem pesquisas e estratégias de incidência sobre desafios climáticos enfrentados em seus territórios.
Desde 2020, a metodologia também orientou projetos desenvolvidos pelo Instituto Decodifica em diferentes áreas, como justiça hídrica e energética em favelas, justiça climática, democracia digital, segurança pública e equidade racial e de gênero, sempre em parceria com organizações da sociedade civil.
Cada projeto exige adaptações metodológicas específicas. As etapas podem mudar de acordo com o tema, o território e os objetivos da pesquisa. O que permanece é o compromisso com a escuta, a valorização dos saberes locais e a participação das comunidades na construção do conhecimento.
Em um cenário marcado pela crise climática, pelo aprofundamento das desigualdades e pela necessidade de fortalecer a democracia, a produção de dados conectados às experiências dos territórios torna-se uma ferramenta essencial. A participação de moradores na definição dos problemas, na construção das perguntas e na interpretação dos resultados faz com que os dados passem a refletir e incidir sobre as realidades locais.