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Conferência de Bonn 2026: gênero, juventude e a produção de conhecimento a partir dos territórios

Quem produz conhecimento sobre a crise climática? Essa pergunta atravessou parte dos debates sobre gênero que o Instituto Decodifica acompanhou durante a SB64, reunião dos órgãos subsidiários da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), realizada entre os dias 8 e 18 de junho, em Bonn, na Alemanha.

O acompanhamento das negociações em Bonn reforça a atuação internacional do Instituto Decodifica na agenda de justiça climática. A organização acompanha os processos da UNFCCC há quatro Conferências das Partes (COPs), teve participação ativa na COP30, realizada em Belém, e esteve presente na edição anterior das negociações em Bonn. Neste ano, o Instituto retornou à Alemanha para acompanhar os debates sobre adaptação, financiamento climático, gênero e tecnologia. A agenda internacional segue nas próximas semanas com a participação na London Climate Action Week, um dos principais encontros globais voltados à implementação da ação climática.

Embora as discussões tenham abordado temas diversos, como o Plano de Ação de Gênero (Gender Action Plan – GAP), financiamento climático e produção de dados, uma preocupação apareceu de forma recorrente sobre a necessidade de ampliar a participação de mulheres, jovens e comunidades na construção das evidências que orientem políticas climáticas.

Entre os temas debatidos, um dos mais presentes foi a insuficiência de dados sobre os impactos das mudanças climáticas em mulheres, meninas, crianças e jovens. Especialistas destacaram que ainda existem lacunas importantes na produção de informações capazes de revelar como gênero, raça, idade, território e condição socioeconômica influenciam a experiência da crise climática.

Para Mariana de Paula, Diretora Executiva do Instituto Decodifica, essa discussão dialoga  com os desafios enfrentados por territórios periféricos:

 “Ainda existem lacunas de dados sobre os impactos das mudanças climáticas em mulheres, meninas, crianças e jovens, sobretudo quando observamos as interseções entre gênero, idade, raça, território e condição socioeconômica.”

Para ela, os debates reforçaram uma das premissas centrais da Geração Cidadã de Dados (GCD), de que os sistemas tradicionais de produção de informação nem sempre conseguem captar as experiências vividas por populações que enfrentam múltiplas vulnerabilidades.

 

O reconhecimento das comunidades como produtoras de conhecimento

Um dos pontos mais relevantes dos debates foi a defesa de metodologias participativas e não extrativistas de pesquisa. Ao longo dos painéis, especialistas argumentaram que comunidades afetadas pela crise climática não devem ocupar somente o papel de informantes em pesquisas conduzidas por governos, universidades ou organizações internacionais.

Mariana destaca que essa perspectiva apareceu de forma consistente nos diferentes debates. A discussão possui forte conexão com o Projeto Manas, iniciativa desenvolvida pelo Instituto Decodifica com jovens mulheres periféricas da Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

Durante o projeto, as participantes atuaram como pesquisadoras comunitárias. Definiram perguntas, escolheram abordagens metodológicas, realizaram entrevistas, analisaram os resultados, elaboraram recomendações e ainda produziram um relatório e um manifesto.

A experiência dialoga diretamente com as reflexões apresentadas em Bonn sobre redistribuição de poder na produção do conhecimento e fortalecimento da autonomia dos territórios.

Nesse sentido, durante a conferência também foi destacado o papel das juventudes na construção de soluções para a crise climática. Os debates indicaram uma mudança importante na forma como crianças, adolescentes e jovens são compreendidos na agenda internacional.

Anteriormente vistos como grupos vulneráveis aos impactos climáticos, passaram a ser reconhecidos como agentes capazes de produzir conhecimento, formular propostas e contribuir para processos de tomada de decisão. 

O Instituto Decodifica entende que jovens mulheres periféricas devem ocupar um papel ativo na formulação de diagnósticos e propostas para enfrentar os desafios climáticos. O Manifesto Político das Manas representa um exemplo desse processo ao transformar dados produzidos pelas participantes em recomendações voltadas à incidência política.

Especialistas argumentaram que indicadores globais, sozinhos, não são capazes de captar toda a complexidade dos impactos climáticos nos territórios. Por isso, defenderam que os sistemas internacionais de monitoramento incorporassem pesquisas comunitárias, narrativas locais e experiências produzidas por organizações de base. 

A avaliação apresentada nos painéis é que indicadores globais, embora importantes, não conseguem captar sozinhos a diversidade de impactos e desafios enfrentados por diferentes comunidades. Por essa razão, cresce a necessidade de incorporar metodologias participativas aos sistemas de monitoramento e governança climática, a exemplo da Geração Cidadã de Dados.

Os debates sobre financiamento climático complementaram as discussões sobre produção de conhecimento e participação. Painelistas defenderam que recursos destinados à ação climática alcancem organizações de base lideradas por mulheres e conectadas aos territórios.

Também houve destaque para a importância de financiar processos de fortalecimento institucional, formação política, governança e articulação de redes. Além disso, foi criticado o local de participação simbólica relegado muitas vezes às mulheres e comunidades nos processos decisórios.

As painelistas argumentaram que a presença desses grupos em espaços de consulta não é suficiente. Desse modo, é fundamental a influência sobre prioridades, investimentos e decisões relacionadas aos recursos climáticos.

 

O que Bonn sinaliza para os próximos anos

As discussões realizadas em Bonn demonstram que a agenda climática internacional tem ampliado o debate sobre quem produz conhecimento e quem participa da construção das soluções.

A produção de dados desagregados, a valorização de metodologias participativas e de evidências produzidas nos territórios deixaram de ocupar uma posição periférica para ganhar espaço crescente nas negociações.

Nesse cenário, experiências como o Projeto Manas mostram que muitas das soluções defendidas hoje nos espaços internacionais sobre o clima já estão sendo construídas nos territórios por jovens mulheres que transformam vivências, pesquisa e mobilização em ação política.