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Nota: chamamos a atenção para as chuvas intensas que atingem o estado de Pernambuco neste momento

As fortes chuvas que atingiram Pernambuco neste início de maio de 2026, deixando famílias ilhadas e elevando o nível dos rios, como o Capibaribe, e a cota de inundação, não podem ser tratadas como um evento isolado ou imprevisível. O que vemos hoje no estado é a repetição de um padrão histórico de vulnerabilização de territórios periféricos e de comunidades já expostas a múltiplas formas de desigualdade. Até a manhã do dia 3 de maio, foram registradas 10 mortes em todo o país em decorrência dos temporais, sendo 6 delas em Pernambuco, além de pelo menos 1.600 pessoas desabrigadas no estado.

Assim como em outros estados brasileiros, os impactos mais severos recaem sobre favelas e periferias, territórios majoritariamente habitados por pessoas negras, onde a ausência de infraestrutura adequada de drenagem, saneamento e moradia digna transforma chuvas intensas em tragédias anunciadas. Famílias perdem bens, documentos, memórias e, sobretudo, sua segurança, em um ciclo que se repete ano após ano, escancarando a dinâmica do racismo ambiental.

Dados da pesquisa Retratos das Enchentes (2025), realizada pelo Instituto Decodifica, evidenciam a gravidade desse cenário em territórios como Passarinho e Dois Carneiros. Nessas localidades, 30% (Passarinho) e 61% (Dois Carneiros) dos moradores relataram perda de móveis e bens essenciais após episódios de alagamento. Em relação ao nível da água dentro de suas residências, 53% dos moradores de Passarinho afirmaram que ela já ultrapassou 20 cm, enquanto, em Dois Carneiros, 51% afirmaram que a água subiu mais de 1 metro. Esses dados reforçam que os impactos das chuvas vão muito além do momento imediato da emergência, gerando consequências materiais e emocionais duradouras.

É fundamental reconhecer que o que está em curso não é apenas consequência da força da natureza, mas também expressão direta de um modelo de desenvolvimento urbano que produz e aprofunda desigualdades em determinados grupos. O racismo ambiental segue operando ao determinar quais territórios recebem investimentos e quais são sistematicamente negligenciados.

As cenas que chegam de Pernambuco dialogam diretamente com as chuvas de 2022 na Região Metropolitana do Recife, quando milhares de pessoas foram afetadas por deslizamentos, alagamentos e perdas irreparáveis. A recorrência desses eventos evidencia a ausência de mudanças estruturais e a permanência de um modelo que expõe sempre os mesmos territórios ao risco.

Reforçamos a urgência de ações coordenadas entre os entes federativos (municípios, estados e União) que priorizem:

  • O fortalecimento da coordenação entre essas esferas, promovendo a integração entre políticas climáticas, urbanas, de saúde, de habitação e de assistência social, com foco na redução de riscos e na proteção das pessoas, principalmente aquelas que se encontram em territórios favelados e periféricos, mais vulnerabilizadas ao impacto dos eventos climáticos compostos.
  • A implementação e fortalecimento de sistemas de alerta precoce, articulados com dados territoriais e comunitários, garantindo governança participativa, comunicação acessível, protocolos de segurança claros e capacidade de resposta rápida em áreas vulnerabilizadas.
  • O investimento contínuo nos órgãos de proteção e defesa civil, com especial atenção à articulação com os Núcleos Comunitários de Proteção e Defesa Civil (NUPDECs), promovendo capacitação local, participação social e integração com políticas de saúde e assistência social.
  • A promoção de políticas de urbanização e habitação, com assistência técnica, garantindo a permanência segura das populações em seus territórios, sempre que possível.
  • Investimento em sistemas de drenagem urbana, saneamento básico e infraestrutura adaptados à realidade climática que vivemos, com o aumento de eventos extremos, como o que acometeu o estado de Pernambuco nesse início de maio.
  • Garantia da continuidade dos serviços essenciais (saúde, transporte, energia, água e saneamento) durante e após os eventos climáticos extremos, como as enchentes. 

 

Também destacamos a importância das redes comunitárias, que, mais uma vez, se colocam na linha de frente para apoiar moradores, organizar respostas emergenciais e garantir a circulação de informações.

Não se trata de fatalidade. Trata-se de uma escolha política.

Enfrentar a crise climática exige enfrentar o racismo ambiental e colocar a vida das populações periféricas no centro das decisões.

Em caso de emergência, entre em contato:

  • Corpo de Bombeiros: 193
  • Defesa Civil: 199

Assinam esta nota:
Instituto Decodifica e Comissão Ambiental Jaboatão dos Guararapes

Foto: Chuvas deixaram ruas alagadas no Grande Recife — Reprodução/TV Globo