55% dos entrevistados relatam dificuldade no sono após enchentes, pesquisa revela impactos da ansiedade climática
Pesquisa Retratos das Enchentes, do Instituto Decodifica em parceria com o Coletivo Fala Akari, Instituto BXD, Observatório Y-guassú e Comissão Ambiental Jaboatão dos Guararapes, analisa os impactos das chuvas extremas no sono, na rotina e na saúde física e mental de moradores de territórios afetados por enchentes.
No Dia Nacional de Conscientização sobre as Mudanças Climáticas, o relatório Retratos das Enchentes evidencia uma consequência pouco visível das chuvas extremas: a ansiedade climática nas periferias. O estudo identifica que moradores de territórios marcados por enchentes apresentam sofrimento emocional associado às mudanças climáticas e ao medo de novos desastres ambientais.
Ansiedade climática é o estado de apreensão constante diante da possibilidade de eventos climáticos extremos, como enchentes, alagamentos e deslizamentos. Esse quadro afeta sono, concentração e rotina, sobretudo em comunidades expostas a desastres climáticos.
A pesquisa reuniu dados de moradores de quatro territórios afetados por enchentes: Kennedy e Acari, no Rio de Janeiro, e Dois Carneiros e Passarinho, em Pernambuco. O levantamento indica que 55% dos entrevistados afirmam que pensar sobre enchentes prejudica de forma recorrente o sono ou a capacidade de concentração.
Além disso, quase 40% relatam impacto direto na convivência familiar, no lazer ou no desempenho no trabalho e na escola, com efeitos concretos em suas rotinas diárias.
“Hoje, quando eu vejo fechar o tempo, as nuvens escurecerem, o coração dispara, conheço muitas pessoas que ficaram com crise de ansiedade só por conta da mudança do tempo”, relata morador(a) de Kennedy, Nova Iguaçu (RJ).
Enchentes ampliam desigualdades de gênero e raça e aumentam a sobrecarga de cuidado
A análise interseccional dos dados mostra que os impactos na saúde mental se distribuem de forma desigual em gênero e raça. Entre as mulheres, os efeitos das enchentes sobre o sono e a concentração são mais frequentes: 58,6% das mulheres negras e 65,1% das mulheres brancas entrevistadas relatam esse tipo de dificuldade. Entre os homens, os percentuais são menores e alcançam 50% entre homens negros e 42,2% entre homens brancos entrevistados. O choro recorrente associado às enchentes também segue esse padrão, enquanto a média geral é de 28,1%, os índices ultrapassam 35% entre mulheres.
“Quando a gente olha de maneira interseccional, ou seja, com aspectos de gênero, raça e classe, fica evidente que são as mulheres, especialmente as mulheres negras dos territórios, as mais afetadas. Porque, para além de lidar com o próprio trauma, com o episódio em si, são as mulheres que também historicamente carregam as responsabilidades do cuidado e da reconstrução da vida cotidiana, não só delas, mas também daquelas pessoas das quais elas cuidam”, Mariana Galdino, Coordenadora de Incidência do Instituto Decodifica.
Esses percentuais dialogam com um fenômeno mais amplo observado nas pesquisas sobre mudanças climáticas, o qual mostra que as mulheres tendem a ser desproporcionalmente afetadas pelos desastres ambientais, especialmente em contextos de vulnerabilidade social. Conforme o relatório Feminist Climate Justice (2023), da ONU Mulheres, projeta-se que, até 2050, cerca de 236 milhões de mulheres entrem em situação de insegurança alimentar em decorrência do aquecimento global, enquanto a projeção para homens é de 131 milhões.
Além dos impactos econômicos e sociais, a crise climática também aumenta a sobrecarga de trabalho de cuidado. Após eventos climáticos extremos, como as enchentes, tarefas relacionadas à organização da casa, ao cuidado com crianças, idosos e familiares doentes, além da busca por água, alimentos e itens básicos, tendem a se intensificar. O relatório buscou produzir dados sobre essas dinâmicas, ao abordar como eventos climáticos extremos também ampliam desigualdades de gênero no cotidiano dos territórios afetados.
Para Mariana Galdino, essa realidade revela uma sobrecarga múltipla sobre as mulheres:
“Então, a gente está falando aqui de uma dimensão de pessoas que têm uma sobrecarga física, mental, emocional e financeira muito além de outros grupos. Considerando que as casas nas periferias são chefiadas majoritariamente por mulheres e por mulheres negras. E como a gente está lidando com a saúde mental dessas mulheres que estão lidando com ansiedade climática, com depressão, se elas também estão cuidando de toda uma comunidade e não estão sendo cuidadas”.
A repetição das enchentes amplia riscos à saúde mental nas periferias
Para quem vive em territórios atingidos por desastres ambientais, a experiência se torna também um evento traumático. A cada novo alerta de chuva, memórias de perdas anteriores são reativadas, alimentando medo, insegurança e ansiedade.
Em bairros como Acari, no Rio de Janeiro, onde enchentes ocorreram em 2020, 2023, 2024 e voltaram a acontecer em fevereiro deste ano, essa repetição intensifica o sofrimento e revela que os impactos climáticos não se limitam ao momento do desastre, mas permanecem no cotidiano das pessoas.
Nos territórios pesquisados, as enchentes fazem parte de uma experiência recorrente que atravessa gerações. Moradores relatam lembranças transmitidas por pais e avós sobre episódios de alagamento, histórias que hoje voltam a se repetir com filhos e netos. Essa repetição de eventos climáticos extremos contribui para um estado de alerta permanente nas periferias urbanas.
Os dados do relatório Retratos das Enchentes mostram a dimensão desse problema: 70,5% dos entrevistados afirmam que as ruas alagam com frequência. A recorrência dos alagamentos ajuda a explicar por que a ansiedade climática se torna parte do cotidiano de quem vive nessas áreas.
Eventos climáticos extremos costumam ser analisados principalmente a partir das perdas materiais, casas danificadas, móveis destruídos e infraestrutura comprometida. No entanto, as enchentes também produzem impactos sociais, físicos e emocionais profundos, que muitas vezes permanecem menos visíveis e pouco mensurados nas pesquisas.
A pesquisa do Instituto Decodifica buscou avançar nessa lacuna ao reunir dados sobre ansiedade climática, saúde física e outros efeitos vividos por moradores de territórios que enfrentam enchentes. Esses impactos, embora frequentes, ainda são pouco incorporados em análises sobre desastres e nas respostas das políticas públicas.
Enchentes também adoecem o corpo: sintomas físicos revelam outro impacto na saúde
Os impactos não se restringem à saúde mental. Quase metade das famílias entrevistadas, 48,5%, apresentou algum sintoma físico após episódios de enchentes. Dor de cabeça, febre e diarreia aparecem entre os sintomas mais mencionados, em Acari (RJ), por exemplo, a pesquisa mostra que 58,4% dos moradores entrevistados relataram sintomas físicos.
Entre os territórios pesquisados, 32,3% dos entrevistados informaram que algum morador recebeu diagnóstico médico pós-enchentes, com destaque para dengue, doenças de pele e leptospirose. O relatório também registrou seis óbitos associados às enchentes.
Esses dados indicam que a crise climática se expressa como questão de saúde pública e de desigualdade territorial. As enchentes produzem efeitos acumulados, que atingem corpo e mente, comprometem a qualidade de vida e ampliam vulnerabilidades sociais.
Ansiedade climática reforça a necessidade de políticas de adaptação do clima
A ansiedade climática vivida por moradores de periferias evidencia que a crise climática não é apenas ambiental, mas também social e política. A repetição de enchentes, a insegurança diante de novos eventos climáticos extremos e a falta de respostas estruturais ampliam o sofrimento cotidiano e reforçam a urgência de políticas públicas de adaptação climática.
Nesse contexto, as mudanças climáticas também se revelam como uma crise marcada por desigualdades no acesso a serviços básicos e à infraestrutura urbana. Os dados do relatório evidenciam essas vulnerabilidades, em que 43% dos entrevistados relataram que o acesso a serviços de saúde foi comprometido durante episódios de enchente.
Após eventos climáticos extremos, moradores podem passar dias sem acesso a serviços públicos, já que hospitais, escolas e unidades de saúde também são atingidos pelos desastres e precisam interromper suas atividades. Esse cenário reforça que a saúde deve ser prioridade nas respostas emergenciais e nas políticas de adaptação climática, com atenção à infraestrutura e ao atendimento médico, como também aos impactos na saúde mental das comunidades.
“Nossos dados e todo esse cenário enfatizam como a crise climática é uma agenda transversal; não é uma agenda só do clima, de ambientalistas ou de pesquisadores. Ela também é um problema de saúde pública. Precisamos de um sistema que se prepare, responda e se adapte às mudanças climáticas para garantir atendimento a todos, principalmente àqueles que se encontram em maior vulnerabilidade socioeconômica e que sentem o impacto da crise climática na perturbação de todo o funcionamento de sua vida, inclusive na saúde”, afirma Mariana de Paula, Diretora Executiva do Instituto Decodifica.
Os dados da pesquisa reforçam a importância de incluir os impactos psicológicos e sociais dos desastres ambientais nas análises sobre as mudanças climáticas. O relatório completo Retratos das Enchentes está disponível para consulta, e a equipe do Instituto se coloca à disposição para entrevistas.